E, neste caso, ele buscou as dificuldades com a gramática. Os pecados que cometemos. Na época comparou aos padres jesuítas que falavam de castidade, a chamando de gramática.
E nada mais atual do que os pecados que cometemos com nossa gramática, especialmente ao escrever em redes sociais, abreviaturas loucas, neologismos que você tem de decifrar.
E para mim o mais perigoso e nefasto. Pessoas que se dizem jornalistas, escritores cometerem erros crassos de gramática. Isso é um estupro, um pecado capital ao qual não podemos deixar passar.
Cometo, é claro, alguns erros. Quem não os comete? Mas escrever "menas", trocar o "mais" pelo "mas", "álvre", "encomodar", "seje", "concerteza", "encomodar", "chega dói"... desculpe, mas dá vontade de bater com uma gramática na cabeça do "vivente".
A quem se propõe a viver da escrita, recomendo a leitura do texto. Se se identificar, não se incomode. Estude mais. Aprender nunca é demais. Leia bons textos (Não somente os do twitter ou facebook) de autores renomados. Mude seu vocabulários. Se esforce. Sejamos melhores a cada dia.
Fraternal abraço a todos.
Pecados
Luis Fernando Veríssimo,
publicado no jornal Zero Hora 8-2-18
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| Luis Fernando Veríssimo, foto de Sylvio Sirangelo |
Na correspondência dos jesuítas eram frequentes as referências à dificuldade que certos padres tinham com a gramática no seu trabalho de catequese, nas Missões. Frequentes e obscuras: não se sabia se a dificuldade tão citada era com a gramática que os próprios padres ensinavam ou com a gramática dos nativos. Até descobrirem que “gramática” era um código para castidade. O problema de alguns padres era manter seus votos de abstinência em meio aos índios. Ou, no caso, as índias.
Conscientemente ou não, o código foi bem escolhido. Pecar contra a gramática é um pouco pecar contra a castidade, se se aceitar que a correção gramatical é uma norma de boa conduta e as regras da língua equivalem a parâmetros morais.
Fala-se na “pureza” do vernáculo e na sua poluição, ou violação, vinda de fora e de um jeito ou de outro o vocabulário da perdição da língua (seu abastardamento, sua vulgarização, sua entrega a estrangeirismos como prostitutas do cais) tem conotações sexuais.
Tomar liberdades com a língua é uma atividade tão mal vista pelos guardiões da sua virtude como seria tomar liberdades com suas filhas. Que o povo peque contra a linguagem é aceitável, já que ele vive na promiscuidade mesmo. Mas pessoas educadas, que conhecem as regras, dedicarem-se a neologismos exibicionistas, à introdução de pronomes em lugares impróprios e ao uso de academicismo para fins antinaturais é visto como devassidão imperdoável. De escritores profissionais, principalmente, se espera que mantenham-se corretos e castos a qualquer custo.
Mas vivemos com relação à gramática como viviam os jesuítas com relação à “gramática”, esforçando-nos para cumprir nossa missão – que não deixa de ser uma catequese, mesmo que só dê o exemplo de como botar uma palavra depois da outra e viver disso com alguma dignidade – sem sucumbir às tentações à nossa volta. Também não conseguimos. O ambiente nos domina, a libertinagem nos chama, e pecamos o tempo todo.


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