Certa vez Millôr Fernandes escreveu o seguinte: “ a história é tão chata que se repete, se repete, se repete....” Esta frase tem me acompanhado por todos esses dias que sucederam a grande revolta, ou sabe-se lá o nome que se possa e queira dar aos atos de vandalismos perpetrados na usina de Jirau.
Como um curioso e apaixonado por Rondônia e sua história, acabei participando das gravações da minissérie “Mad Maria”, gravada parcialmente aqui em Rondônia. E devido as gravações acabei estudando um pouco a história da construção da obra e percebo que 100 anos após sua conclusão, como é de praxe, a história se repete.
Senão vejamos. Na época da Madeira-Mamoré, milhares de trabalhadores vieram para estas bandas, atraídos por um eldorado, por promessas de riquezas, trabalho e muita fartura no seio da floresta amazônica. Na época, o grande vilão além do forte calor e da umidade era o mosquito, que dizimava sem dó nem piedade com malária e febre amarela. Para piorar a situação, as condições eram insalubres, não havia sindicatos para defender interesses coletivos, muito menos os defensores dos direitos humanos (em tempo: aqui no Brasil os defensores dos direitos humanos só se manifestam para defender interesses de vândalos e bandidos). Sem contar que todo o trabalho era braçal, quase que sem nenhuma tecnologia a auxiliar na construção e na segurança individual e coletiva.
Nos dias atuais os inimigos são os mesmos: calor, chuva, umidade, mosquitos. Mas a tecnologia está ao lado do homem. Protetor solar, repelentes, EPIs (equipamentos de proteção individual) e ar condicionado nos locais fechados, ajudam a minimizar as conseqüências. Máquinas e equipamentos garantem rapidez e segurança na execução da obra. Alimentação e alojamentos adequados asseguram um mínimo de qualidade de vida para os que permanecem alojados vindo dos mais distantes rincões deste país.
E assim como na grande epopéia amazônica, trabalhadores de outros países começam a chegar em busca de trabalho e de sua sobrevivência, como é o caso dos haitianos. Há na obra de jirau vários trabalhadores bolivianos, equatorianos, etc.
Mas uma coisa não mudou nesses 100 anos e milhares de anos da humanidade: a irracionalidade. O gosto pelo sangue que o ser humano possui. E isso ficou claro nesse motim, rebelião, vandalismo, irracionalidade que se perpetrou na usina de Jirau. Um simples fato (isso é o que chegou até nós) detonou todos estes atos de violência num “efeito manada”. E quando me refiro a “Efeito Manada” falo de consensos, de consentimentos unânimes, de atitudes que vão de encontro aquilo que socialmente é aceito como o mais correto, apenas porque a “manada” vai toda para o mesmo lado. Este efeito acontece quando diversas pessoas decidem fazer a mesma coisa ao mesmo tempo, de maneira desordenada mas contínua. Tudo começa quando uma parte decide fazer uma coisa, e aí todos os outros, ao verem os primeiros a ir para um lado, decidem remar para esse mesmo lado.
E foi exatamente isso que pode ter acontecido em Jirau. A panela de pressão estava ali, fervilhando. Milhares de trabalhadores trancafiados, sem diversão, somente acordando, comendo e produzindo. A rotina se estabelecendo. Aí um fala mal do trabalho, pragueja, outros concordam, outros se calam. A revolta contra a indiferença do capital para com o trabalhador vai remoendo e crescendo e quando uma gota a mais cai no caldeirão, aí explode. E o sujeito até então sereno, pacífico, se transtorna e acaba entrando no caldeirão e tudo acontece repentinamente. Claro que há um líder para isso. Se premeditado ou não, o tempo e as investigações dirão.
Mas o que nos chama a atenção é esta semelhança com os fatos do passado recente. Mudaram personagens, local e tipo de obra. Mas não muda o tipo de tratamento com o ser humano e as revoltas. Onde se chega a conclusão que não evoluímos no tratamento e onde vemos que o homem continua selvagem e primitivo como sempre o foi. Disfarçadamente primitivo. Teconologicamente primitivo.
Voltaremos ao assunto, com certeza.

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